__ Então, Pedro... __ a psiquiatra se inclina na direção de seu paciente __ Você já me contou sobre esses acontecimentos várias vezes... __ ela o encara firme, mas ele desvia o olhar. Ela insiste, sem sucesso, retornando ao encosto da cadeira em que está sentada __ Precisamos de mais informações. Eu quero te ajudar, mas para isso você precisa me ajudar...
Pedro, que está sentado em um pequeno sofá, o rosto praticamente impassível, permanece em silêncio por alguns instantes. Ele suspira, dá de ombros e então decide se manifestar, porém seus olhos permanecem vazios, olhando para o chão, como se buscasse algo __ Não consigo lembrar mais nada, doutora. Sinto muito. Minha cabeça dói quando me esforço, mas por mais que eu tente suportar esse dor, tentando e acreditando que se puder trespassá-la irei conseguir algo a mais... __ ele deixa os ombros caírem, como se estivesse exausto __ Nada acontece e eu me sinto frustrado, incapacitado...
__ Não precisa se sentir assim __ a psiquiatra coloca uma das mãos sobre o braço esquerdo de Pedro __ Já conversarmos sobre isso. Não se sinta pressionado, mas também não quero que se entregue a um estado de torpor. Tenho certeza de que vamos conseguir alcançar um progresso...
Pedro lhe volta os olhos calmamente, esboçando um sorriso, mas não demora muito para se deixar cair deitado sobre o sofá. A psiquiatra o contempla tendo o cuidado de não emitir qualquer reação em seu semblante; ela faz algumas anotações na prancheta, se despede discretamente do paciente, se levanta e sai do quarto sem pressa, não se esquecendo de olhar para trás, pesarosa, antes de fechar a porta atrás de si.
Gabriela atravessa os corredores da ala psiquiátrica do hospital sem pressa, pensativa. Há exatos quatro meses vem tratando esse paciente após a desistência de uma colega e não imaginava que a batalha seria intensa, improdutiva, pelo menos até ali.
__ O que mais posso fazer para tentar descobrir o que realmente aconteceu... __ ela divaga em seus pensamentos __ Não vou desistir. O transtorno dissociativo de personalidade está diagnosticado. Comprovado... Agora preciso trazer Pedro, ou como ele quiser que o chame, de volta... Encarar a realidade... Fazê-lo constatar e reconhecer tudo o que houve...
Ela para em frente a uma porta que fica no início da ala psiquiátrica, dá duas batidas, se anuncia e logo uma voz masculina lhe pede que entre, o que ela faz, sem titubear, cumprimentando o homem sentado atrás da mesa, se acomodando em uma das cadeiras que estão dispostas à sua frente.
__ Então, doutora... __ o homem lhe pergunta enquanto termina de arrumar alguns papéis, não demorando a dispensar a atenção necessária.
__ Infelizmente nada de novo __ Gabriela cruza as pernas, apanha a prancheta com suas anotações, passa os olhos rapidamente sobre elas e se volta para o seu interlocutor __ O paciente continua muito, muito arredio. Percebo uma resistência absurda de sua parte em verbalizar os acontecimentos, de fato, que aconteceram e que fizeram desencadear o distúrbio pelo qual acabou sendo acometido.
__ Dupla personalidade, é isso, doutora? __ o homem atrás da mesa estende a mão direita e alcança uma pasta com alguns papéis, trazendo-a para perto de si, olhando com relativa calma o conteúdo que se mostra quando ele a abre __ A dupla personalidade é um transtorno mental de difícil diagnóstico, a senhora bem sabe, e que muitas vezes não consegue ser confirmado pela psiquiatria devido o paciente apresentar uma sintomatologia diversificada e com comorbidade com outros transtornos... Alguns tipos de esquizofrenia, por exemplo, são muitas vezes confundidos com transtornos de personalidade...
__ Exatamente, doutor Chagas. Quando peguei este caso cheguei a ter dúvidas quanto ao prematuro diagnóstico realizado pela colega responsável por ele, antes de mim, mas depois de todos esses quatro meses, as conversas, os testes, não me deixaram dúvidas de que o paciente sofre seriamente do transtorno dissociativo de personalidade.
__ Logo que assumi a direção dessa ala, doutora, há duas semanas __ inicia o doutor Chagas, alternando o olhar entre os papéis e a colega de profissão __ Fui logo direcionado para esse caso, envolvendo um desembargador da Justiça, renomado, conhecido nos altos escalões da nossa política, inclusive... Claro que devido a esse relevante fato, a senhorita sabe que precisamos tratar desse caso, especificadamente, com toda discrição possível... Tanto que a senhorita foi escolhida a dedo para assumi-lo após a desistência sem qualquer precedente da doutora Bernadete...
Gabriela acena positivamente com a cabeça.
__ Mas eu não tinha ideia do que iria encontrar __ Chagas continua __ Como um desembargador conseguiu esconder o seu passado? Apagá-lo?
__ Como o senhor deve ter visto nesses relatórios, existem motivos de sobra para o paciente ter desenvolvido um mecanismo que o possibilitou a enfrentar situações traumáticas e dolorosas, até chegar a esse ponto, desintegrando a sua existência...
Dessa vez é o doutor Chagas que acena positivamente: __ Sim. Sim. Concordo. Segundo o relato de uma de uma das irmãs dele, que se surpreendeu quando a procuramos, pois já havia perdido as esperanças de ter notícias desse irmão, ela e o Meritíssimo sofreram abusos sexuais constantes durante a infância e adolescência, por parte dos próprios pais, eles dois e a irmã mais nova...
__ Essa mesma irmã caçula com quem o desembargador se casou, sabe-se lá como... __ completa Gabriela, descruzando as pernas, buscando alguma informação em sua prancheta.
__ Sim... __ Chagas deixa escapar um suspiro __ O Meritíssimo Márcio Antônio e essa irmã caçula sumiram do mapa, mudaram os nomes, apagaram o passado, construíram outra historia e que pelo jeito convenceu a todos, e constituíram família...
__ Pedro e Janete __ a psiquiatra pousa o olhar contundente sobre uma folha __ Pedro e Janete. Eles batizaram os próprios filhos com os nomes dos pais... __ Gabriela tamborila os dedos da mão direita sobre a prancheta __ Desregulagem emocional, colapso de ego... __
__ Pelos relatos da irmã mais velha, os pais exigiam respeito, impunham autoridades, apesar de usá-los como escravos sexuais, deliberadamente... __ Chagas apoia as duas mãos sobre a pasta aberta sobre sua mesa e encara Gabriela, firma __ E a jovem Janete? Internada numa clínica psiquiátrica, com outro nome, diagnosticada como louca, completamente insana, afinal, ela sempre dizia ser filha do desembargador e dos horrores que os pais tentaram lhe fazer, mas que ela resistiu, não conseguindo salvar o irmão, infelizmente...
__ Era na verdade a mais sã de todos envolvidos nessa história torpe e pagou um preço alto, não só tendo sua sanidade mental subjugada, como a própria vida tirada...
__ Segundo relatórios da clinica, a jovem se suicidou... __ arremata Chagas, arqueando uma das sobrancelhas...
__ Assim como os pais do Meritíssimo, que atearam fogo na própria casa, estando dentro dela __ completa Gabriela, num tom beirando o cinismo.
Um rápido silêncio toma conta da sala.
__ Seja como for, doutor Chagas, o Pedro que está lá naquele quarto, um tanto quanto catatônico, inerte diante de tudo o que lhe aconteceu, tem motivos de sobra para reagir da forma como o seu cérebro reagiu... É uma vítima das circunstâncias... É uma fato incontestável.
__ Mas a polícia ainda não arquivou o processo do crime cometido, lembre-se disso doutora.
Dessa vez um longo silêncio ressoa na sala do diretor Chagas...
Pedro abre os olhos. Ainda está deitado sobre o sofá. Sua mente parece vazia, assim como os seus olhos, mas logo um sorriso estranho perpassa sobre seus lábios...
__ Idiotas __ ele sorri e se senta, apoiando as mãos atrás da nuca __ A Marta mereceu o que teve. Cretina. Do nada decidiu que o filhinho dela não podia mais ser o nosso macho __ ele meneia a cabeça rapidamente e a segura, parecendo querer evitar a enxurrada de lembranças que querem lhe invadir a mente __ Mereceu o que teve. Mereceram o que tiveram. Ela, nossos filhos, nossos pais...
Uma gargalhada pesada e sarcástica toma conta de todo o quarto. Pedro se levanta, inspira profundamente e deixa um pensamento lhe escapar enquanto relaxa os ombros __ Essas bestas acham que vão me manter para sempre aqui dentro. Idiotas. Sei o que estou fazendo e não vai demorar muito para eu poder voltar a caminhar por aí... __ ele passa uma das mãos sobre a barriga __ Quando sair daqui vou cuidar dessa minha barriguinha __ outra gargalhada ecoa pelo quarto... __ Em pensar que eu já fui um rato de academia na minha juventude...
Sem pressa, o paciente caminha em direção à cama. Um homem de 58 anos, alto, visivelmente acima do peso, detentor de uma barriguinha que mais parece estar no sexto mês de gravidez, um pouco cabeludo, ostentando os cabelos brancos precoces que lhe roubam a cabeleira grisalha que até então ostentava com tanto orgulho...
FIM